Em show histórico no Super Bowl, Bad Bunny bate recorde de espectadores nos EUA, falando e cantando em espanhol

Para quem nasceu na América Latina, impossível não se identificar com alguns momentos deste roteiro impecável, incluindo nós, brasileiros
Em apenas treze minutos, o artista mais ouvido do mundo em 2025, Bad Bunny, fez um show provocador e emocionante, um marco na história do cobiçado intervalo do Super Bowl, que aconteceu ontem (8), no Levi’s Stadium, em Santa Clara, Califórnia. Falando e cantando apenas em espanhol, ele conquistou o maior recorde de espectadores dos EUA desde 2018: 135,4 milhões, segundo a NFL, liga nacional do futebol americano.
Cantando músicas de seu último álbum, DeBÍ TiRAR MáS FOToS (premiado com três Grammy recentemente) e também sucessos “antigos”, o artista explorou o cenário exuberante montado no campo do estádio, cheio de simbolismos, limitado por palmeiras e folhagens tropicais e “habitado” por centenas de bailarinos e músicos, que apresentaram aspectos da vida cotidiana de Porto Rico, sua terra natal.

Lá estavam trabalhadores nos canaviais, jogadores de dominó, uma mulher na manicure, carrinhos de bebidas artesanais e iguarias locais, lutadores de box, um casamento de verdade (os noivos convidaram Bad Bunny, mas ele inverteu o convite, sugerindo que eles se casassem durante o show), um garoto que assistia à TV com os pais – que talvez representasse o menino Benito Antonio Martinez Ocasio – recebe dele um dos prêmios conquistados no Grammy deste ano, e Maria Antonia Cay, mais conhecida como Toñita, dona do bar Caribbean Social Club, um dos mais emblemáticos da cultura latina em Nova York.
A réplica de La Casita – uma casa tradicional porto-riquenha, que é espaço de acolhimento e simboliza comunidade e resistência cultural, onde nasceu o reggaeton -, abrigou latinos (ou descendentes) consagrados como os atores Pedro Pascal e Jessica Alba, as cantoras Karol G, Cardi B e Young Miko e o jogador de beisebol Ronald Acuña Jr.
A La Marqueta, um dos símbolos mais poderosos e emblemáticos do comércio no Harlem, em Nova York, também foi representada. Nesse local, gerações de imigrantes mantêm viva a essência da música e da comunidade latinas. É um local que dá as boas-vindas à cultura urbana e aos latinos que vivem nos Estados Unidos com barbeiros, food trucks, joalherias e vendedores ambulantes.
Apoio a imigrantes, mulheres e à independência
Com a música Yo Perreo Sola (Eu rebolo sozinha), de 2020, Bad Bunny cantou contra assédio e defendeu o direito das mulheres de dançarem ‘perreo’ (dança sensual, similar ao rebolado do funk, que surgiu em Porto Rico nos anos 80) em público, em paz.
Com NUEVAYoL (pronúncia espanhola para New York), reforçou o apoio aos imigrantes e à diáspora porto-riquenha na cidade. No palco, imagens de seu discurso no Grammy – em que respondeu à Trump (“não somos animais”) e declarou “ICE out” -, enfatizaram sua crítica às políticas migratórias dos EUA, covardemente executadas por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega.
Em dado momento, o cantor surgiu com uma grande bandeira de Porto Rico, com o triângulo em azul-claro (a cor tradicional é azul-escuro), associada aos rebeldes pró independência e cantou El Apagón: subiu num poste e causou um rápido apagão no estádio, criticando a precária infraestrutura elétrica de seu país que, após o furacão Maria, em 2017, nunca mais voltou a funcionar com eficiência.
Sucesso e autenticidade
Lady Gaga e Ricky Martin também participaram do show. Gaga apareceu para animar a festa do casamento e cantou – em inglês – Die With A Smile, música de sua autoria, em ritmo de salsa e com direito a bailar com o dono do espetáculo.
Já Ricky, também porto-riquenho, cantou a música Lo que le pasó a Hawaii, de autoria de Bad Bunny, que denuncia o turismo predatório em Porto Rico, num cenário que recria a capa do último álbum do amigo. Sua presença lembra que o cantor que iniciou sua carreira, ainda criança, lutou muito para se estabelecer, mas foi obrigado a aderir à língua inglesa e negar quem era.
Em carta, ele declarou a Bad Bunny: “Você venceu permanecendo fiel a Porto Rico. Você ensinou que sua identidade é inegociável e que o sucesso não está em desacordo com a autenticidade”. Ricky não participou do show do amigo por acaso.
Aula de política, diversidade, identidade… e geografia
O show de Bad Bunny no Super Bowl foi uma aula de política, diversidade, identidade, memória e auto-estima. No início, ao som de Tití Me Preguntó, ele destacou: “Qué rico es ser latino!”. E declarou, olhando para a câmera que transmitia sua imagem nos telões: “Hoje, estou aqui no Super Bowl 60 porque nunca deixei de acreditar em mim. Você também deveria acreditar em você. Você vale mais do que você imagina”.
O cantor, que tem 31 anos, também ensinou o mundo sobre história e geografia, sobre o que, de fato, é a América. No final, logo após declarar “God bless América” (único momento em que falou em inglês), citou todos os países do continente americano, do Chile ao Canadá – por último, “minha mãe terra Porto Rico” –, amplificando o significado da expressão. Foi de arrepiar! E os espectadores estadunidenses puderam descobrir, finalmente, que não são os únicos americanos do mundo.
Enquanto caminhava, corria e pulava pelo cenário – usava peças em tom creme (luvas, inclusive), numa linda combinação de moletom (com o número 64 e o sobrenome da mãe aplicados, na mesma cor) com camisa, gravata e calça, e tênis de sua parceria com a Adidas -, Benito Ocasio era seguido pelos companheiros de palco que empunhavam bandeiras de cada país citado por ele.
No telão ao fundo, se lia em inglês: “The only thing more powerful than hate is love”. A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor.
Ao parar em frente à câmera que acompanhava seus passos, e revelar a frase Together, we are America, gravada na bola de futebol que o acompanhou durante o show, o artista completou: “Seguiremos así!”. E a jogou com força no chão. O maravilhoso espetáculo do cantor mais ouvido de 2005 chegava ao fim.
Nos bastidores, amoroso que é, agradeceu, emocionado e feliz, a todos que participaram do show e contribuíram para torná-lo grandioso.
Todos querem ser latinos
“Agora, todos querem ser latinos, mas falta tempero”. A frase faz parte da letra da canção El Apagón, e inundou as redes sociais ainda durante o show, ilustrada por fotos ou vídeos de Bad Bunny. Não à toa! Ela ilustra bem o sentimento que certamente percorreu o mundo com este espetáculo transbordante. Que orgulho ter nascido latina(o), não? Neste mundo que tem se tornado cada vez mais raivoso, é um alento.

Xenofóbico e racista declarado – autor de políticas violentas contra os imigrantes, garantidas por sua polícia miliciana, o ICE, que já matou dois norte-americanos -, o presidente dos Estados Unidos foi contra a indicação de Bad Bunny para o show de intervalo do Super Bowl, desde o início – “péssima escolha” -, especialmente após as declarações do cantor na cerimônia do Grammy.
Enquanto isso, posts nas redes sociais mostravam chineses encantados com o espetáculo e que se esforçavam para acompanhá-lo, tentando cantar suas músicas em espanhol. Serão fake? Eu não diria isso porque me parece muito natural que pessoas de qualquer lugar do planeta possam ter se encantado com o talento e o magnetismo do cantor porto-riquenho naquele palco tão especial. Este foi o primeiro e último show de Bad Bunny nos EUA, e só aconteceu porque foi um convite da NFL.
A seguir, assista ao show completo:
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